A voz de Adriana chega devagar. Passa primeiro ao largo, num jogo de sedução discreto, como quem nem reparou em nós, mas sabe que não temos por onde escapar. Não nos dá a mão e não nos arrasta consigo à força. Vai-nos envolvendo docemente, com vagar, nos meandros de uma pop leve, levezinha que navega livremente entre o jazz, a bossa nova e uma música portuguesa sem idade. Como se o balanço de cada sílaba, embrulhado num delicioso embalo rítmico, se passeasse de braço dado com melodias de uma simplicidade quase infantil e, por isso, quase perfeitas.
À semelhança do que acontece com a mais elaborada sedução feminina, a voz de Adriana faz-nos crer que fomos nós que a conquistámos. Mas, reflectindo um pouco, não demoramos a perceber que fomos nós a estender-lhe a mão, a pedir que ficasse connosco e nos segredasse uma e outra vez as mesmas palavras que já vamos sabendo de cor.
Adriana, nasceu há 26 anos em Portugal. Tinha sete anos quando começou a estudar música, frequentando aulas de solfejo e formando-se de acordo com os cânones clássicos. Aos 16 anos, estava findo o Conservatório e, precisando de uma experiência nova, matriculou-se na Universidade Nova, em Lisboa, em Línguas e Literaturas Modernas. Sobreviveu alguns semestres. Só até uma audição para a atribuição de uma bolsa para a Berklee College of Music, em Boston, e a vontade terrível de comer crepes a fazerem comprar um bilhete de avião até Paris. Não sabia bem ao que ia, mas tinha a certeza de que dificilmente voltaria a Lisboa e à rotina das aulas.
Ganhou a bolsa, seguiu para a Berklee e, em dois anos, concluiu (com summa cum laude) um curso de quatro, sacrificando os Verões. Enquanto os outros iam até à praia ou visitar a família, Adriana sabia que até nisso havia de ser diferente, porque a ela ninguém lhe dizia quando devia tirar férias. Concluiu o curso com distinção e para comemorar foi jantar com uma amiga. Como se esquecera da carteira em casa teve de cantar para pagar a refeição. O momento teve o seu quê de revelação: percebeu o que um músico tinha de fazer para viver da sua arte.
E que fez ela? Tocou em restaurantes, casamentos, funerais, tudo o que aparecesse. E era feliz. Até que chegou a hora de satisfazer a sua curiosidade relativamente ao emprego 9-às-5 da maioria. Empregou-se como consultora e ficou a saber o que se faz dentro de um escritório todos os dias. A experiência dava para viajar, aprender a negociar, vestir casaco e calças, andar de salto alto, sentar-se ao computador, receber um cheque de duas em duas semanas. Por lá trabalhou até que se levantou do seu posto de trabalho, despediu-se e, para grande fúria de toda a gente, abandonou simplesmente o edifício e nunca mais lá pôs os pés. Fechou-se em casa, começando a escrever as canções que hoje nos dá a descobrir. Já não voltou aos casamentos e funerais. Porque, regra geral, voltar atrás não é coisa que se lhe cole particularmente bem à pele. Aos 25 anos, Adriana lançou o seu disco de estreia. Sete anos depois de ter desembarcado nos Estados Unidos e ter aprendido que nada é controlável, assume como objectivo conquistar os seus medos. Um deles era produzir este álbum, onde ela canta, toca flauta, guitarra, piano. Presentemente, Adriana encontra-se a preparar o seu segundo álbum, depois de ter visto o seu disco de estreia chegar aos tops nacionais, três das suas canções integrarem a banda sonora de telenovelas e de ainda ter sido nomeada para os Globos de Ouro.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
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